O professor Calton Cadeado, especialista em Relações Internacionais, Paz e Segurança, considera que várias das condições sociais e económicas que alimentaram o descontentamento manifestado nas ruas em Moçambique continuam presentes, alertando que o País poderá voltar a enfrentar protestos se as causas de fundo não forem discutidas e enfrentadas.
A análise foi feita durante uma entrevista ao podcast We Talk Business, apresentado pelo Dr. Zeiss Lacerda, na qual Cadeado abordou as manifestações pós-eleitorais, o desemprego juvenil, o crescimento populacional, a pobreza e a diferença entre o crescimento económico apresentado nas estatísticas e aquilo que os cidadãos sentem no seu dia-a-dia.
Frustração dos jovens chegou a um ponto de saturação
Para Cadeado, interpretar as manifestações apenas a partir da disputa eleitoral deixa de fora outras pressões acumuladas na sociedade.
O académico aponta particularmente para a situação dos jovens nas zonas urbanas, onde identifica dificuldades de emprego e expectativas sociais que muitas vezes não encontram resposta.
“A frustração da juventude nas cidades, as juventudes, os jovens chegaram a um ponto de saturação na sua frustração”, afirmou.
Cadeado recorre à relação entre frustração e agressividade para explicar como um ambiente de descontentamento pode transformar-se rapidamente numa mobilização de grande dimensão.
“A frustração gera agressão. Só precisa de um rastilho para acender isso”, disse.
Na sua leitura das últimas manifestações, o académico atribui a Venâncio Mondlane o papel de catalisador de uma insatisfação que já existia.
“Nessas últimas manifestações nós vimos que o Venâncio foi o rastilho que estava à espera”, declarou.
Cadeado, no entanto, rejeita explicações baseadas num único factor e sustenta que os conflitos sociais e políticos resultam da combinação de várias causas.
Pais e mães também estavam nas ruas
O especialista chamou ainda atenção para o facto de as manifestações não terem envolvido apenas jovens.
“Não eram só os jovens que estavam ali, haviam pais que estavam ali, mães que estavam ali”, afirmou.
Segundo Cadeado, uma das preocupações que identificou entre os participantes estava relacionada com o futuro dos jovens formados que permanecem sem emprego.
“Todos aqueles que estavam ali diziam: ‘Meu filho não tem emprego’”, relatou.
Para o académico, muitas famílias investiram os poucos recursos disponíveis na educação dos filhos, acreditando que a formação lhes permitiria alcançar melhores condições de vida.
Entretanto, quando esses jovens terminam os estudos e não encontram oportunidades, aumenta a frustração tanto dos próprios jovens como das famílias que investiram na sua formação.
Imagem de apoio. Entretanto, quando esses jovens terminam os estudos e não encontram oportunidades, aumenta a frustração tanto dos próprios jovens como das famílias que investiram na sua formação.
Crescimento populacional aumenta pressão
Outro factor destacado por Cadeado é o crescimento populacional, sobretudo entre os jovens.
O professor argumenta que, embora Moçambique seja territorialmente grande, a questão deve ser analisada à luz da capacidade económica do País para responder às necessidades da população.
Na sua análise, o problema não está apenas no número de habitantes, mas na relação entre o crescimento da população, os empregos disponíveis, os serviços públicos e a riqueza produzida.
Cadeado relaciona esta realidade com aquilo que descreve como um ciclo de reprodução da pobreza, em que recursos limitados acabam repartidos por famílias numerosas, dificultando uma melhoria sustentável das condições de vida.
“O Governo tem a sua parte de responsabilidade. Mas é preciso começarmos a discutir também ao nível das famílias”, defendeu.
Para o académico, mesmo um crescimento económico elevado pode não produzir melhorias suficientes se a população crescer a um ritmo que aumenta continuamente a pressão sobre os recursos disponíveis.
Crescimento económico que não chega ao bolso
Cadeado considera igualmente importante distinguir o crescimento económico registado nas estatísticas daquilo que as pessoas sentem nas suas próprias vidas.
“O País estatisticamente pode mostrar crescimento, mas o bolso do cidadão não mostra a mesma sensação”, afirmou.
Segundo o professor, construir escolas, hospitais, estradas ou outras infra-estruturas é importante, mas a população tende cada vez mais a avaliar os resultados a partir do impacto concreto dessas realizações.
“O que é que isso mudou na minha vida?”, questionou, ao explicar a forma como os cidadãos avaliam actualmente as realizações públicas.
Na sua leitura, essa diferença entre os indicadores apresentados pelas instituições e a realidade sentida pelas famílias pode alimentar percepções de estagnação e aumentar a insatisfação social.
“O cenário é termos novas manifestações”
Ao abordar possíveis cenários futuros, Cadeado revelou que já foi criticado por admitir a possibilidade de novas manifestações.
“Alguém me acusou de eu estar a profetizar ou a fazer apologia a novas manifestações”, contou.
O académico rejeita essa interpretação e sustenta que está apenas a analisar as condições existentes no País.
“Em função dos dados que nós estamos a ter aqui, o cenário é termos novas manifestações”, afirmou.
E acrescentou: “Porque as condições estão aí.”
Para Cadeado, discutir essa possibilidade não significa defender novos protestos, mas reconhecer que algumas das causas que alimentam o descontentamento continuam sem resposta.
Sem uma causa única
Apesar do alerta, o professor insiste que nenhuma manifestação ou conflito desta dimensão deve ser explicado através de um único factor.
“Nos estudos de conflito, a gente refuta muito essa ideia de factor único”, afirmou.
Segundo Cadeado, há factores individuais, familiares, comunitários, económicos, demográficos, políticos e estatais que podem actuar ao mesmo tempo.
Na sua perspectiva, compreender esses diferentes elementos é fundamental para reduzir a probabilidade de os conflitos atingirem novamente níveis de violência e instabilidade.
Para o académico, enfrentar as causas do descontentamento passa, entre outros aspectos, por prestar maior atenção à população jovem, ao emprego, à educação, à qualidade do crescimento económico e à forma como os conflitos políticos e sociais são geridos.
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