O alerta surge numa altura em que milhares de famílias continuam a recuperar dos efeitos de sucessivos eventos climáticos extremos, incluindo cheias e inundações, enfrentando dificuldades no acesso a alimentos, água e sementes para a próxima campanha agrícola.
Segundo a organização, a previsão de uma nova época de seca poderá comprometer a produção agrícola, agravar a escassez de alimentos e aumentar a vulnerabilidade das comunidades rurais, sobretudo nas regiões sul e centro do País.
"Depois de anos de choques climáticos repetidos, [as comunidades] têm poucos recursos restantes e outra colheita falhada poderá empurrá-las ainda mais para a fome", refere a CARE, num comunicado divulgado na sexta-feira.
De acordo com a mais recente análise da Classificação Integrada das Fases da Segurança Alimentar (IPC), citada pela organização, cerca de 1,84 milhões de pessoas poderão enfrentar níveis de insegurança alimentar classificados como crise ou superiores até Março de 2027. Deste total, aproximadamente 254 mil poderão atingir a fase de emergência alimentar.
Os dados representam um agravamento face ao período entre Julho e Setembro de 2026, quando cerca de 1,19 milhões de pessoas enfrentavam insegurança alimentar aguda, das quais 81 mil se encontravam em situação de emergência.
A mesma projecção aponta para riscos elevados de desnutrição aguda, podendo afectar mais de 103,6 mil crianças menores de cinco anos e cerca de 11,1 mil mulheres grávidas ou lactantes.
A CARE adverte que mulheres e raparigas estarão entre os grupos mais afectados pela deterioração das condições alimentares, devido às dificuldades crescentes no acesso à água, à produção agrícola e aos recursos essenciais para a sobrevivência das famílias.
Uma avaliação rápida realizada em Setembro, em 14 comunidades das províncias de Gaza, Inhambane e Nampula, revelou que a escassez de água está a obrigar mulheres e raparigas a percorrer distâncias cada vez maiores para abastecer as suas famílias, enquanto continuam responsáveis pelas actividades agrícolas e domésticas.
O estudo identificou igualmente riscos acrescidos de casamentos prematuros, abandono escolar e agravamento das condições de saúde e higiene, sobretudo entre as populações mais vulneráveis.
Apesar das perspectivas de agravamento da crise, a organização humanitária considera insuficiente a assistência actualmente disponibilizada às comunidades ameaçadas pela seca. Segundo a CARE, cerca de 93% das comunidades inquiridas afirmaram não ter recebido qualquer apoio relacionado com a ameaça de escassez de água e alimentos.
Nas províncias de Cabo Delgado e Nampula, os impactos do conflito armado e das deslocações populacionais continuam a comprometer a actividade agrícola e o acesso a sementes e outros insumos de produção. Já no sul do País, os episódios sucessivos de seca e cheias destruíram culturas e reduziram as reservas alimentares de numerosas famílias.
Perante este cenário, a directora da CARE Moçambique, Kátia dos Santos Dias, defendeu a necessidade de medidas urgentes para proteger os meios de subsistência das comunidades antes do agravamento das condições climáticas.
"Os avisos antecipados são importantes, mas os avisos por si só não colocam sementes na terra nem comida na mesa", afirmou a responsável.
A organização apelou ao Governo, aos doadores e aos parceiros internacionais para reforçarem o apoio aos agricultores, através da disponibilização de sementes resistentes à seca, melhoria do acesso à água e assistência alimentar imediata às famílias em situação de maior vulnerabilidade.
O fenómeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico central e oriental, influencia os padrões de precipitação e temperatura em diferentes regiões do mundo, podendo provocar períodos prolongados de seca e outros eventos climáticos extremos.
Em Moçambique, as autoridades já alertaram para o risco de precipitação abaixo do normal em várias zonas do território nacional, particularmente nas regiões sul e centro, com possíveis consequências para a produção agrícola, disponibilidade de água e segurança alimentar.
O Governo anunciou a preparação de medidas de resposta e mitigação dos impactos da seca, incluindo acções destinadas a proteger a produção agrícola, melhorar o abastecimento de água e apoiar comunidades expostas aos efeitos do fenómeno climático.
Entretanto, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) solicitou um financiamento de 10 milhões de dólares para reforçar a assistência agrícola às famílias vulneráveis, enquanto o Programa Alimentar Mundial (PAM) identificou necessidades de 20 milhões de dólares para apoiar iniciativas de alerta antecipado e assistência financeira.
Para as organizações humanitárias, a rapidez na mobilização de recursos e na implementação de medidas preventivas será determinante para reduzir as perdas agrícolas e evitar um agravamento da insegurança alimentar nos próximos meses.