Noémia de Sousa Previu que Paulina Chiziane “Ia Dar que Falar”

A escritora e jornalista moçambicana Noémia de Sousa acreditava no talento de Paulina Chiziane muito antes de esta se tornar uma das maiores referências da literatura africana. Em 1997, chegou mesmo a aconselhar uma jovem jornalista portuguesa a procurar Paulina durante a Feira do Livro de Frankfurt, garantindo que a então pouco conhecida escritora ainda “ia dar que falar”.
A história foi recordada por Maria do Céu Novais, antiga jornalista da agência Lusa, por ocasião das celebrações dos 100 anos do nascimento de Noémia de Sousa.
Na altura, Maria do Céu Novais trabalhava com Noémia de Sousa na Lusa, onde a escritora moçambicana exercia funções de jornalista e editora. Quando surgiu a oportunidade de cobrir a Feira do Livro de Frankfurt, em 1997, a jovem jornalista decidiu pedir-lhe conselhos sobre os autores que deveria acompanhar.
Noémia de Sousa indicou-lhe Paulina Chiziane.
Segundo o relato de Maria do Céu Novais, Noémia explicou que Paulina era ainda pouco conhecida, tímida e provavelmente tentaria passar despercebida durante o evento, mas acreditava que a sua obra tinha qualidade suficiente para ganhar projecção internacional.
A recomendação acabou por revelar-se certeira.
Maria do Céu Novais conseguiu encontrar Paulina Chiziane durante a feira e entrevistá-la. Frankfurt viria também a marcar uma etapa importante na projecção internacional da escritora moçambicana, que posteriormente consolidou uma carreira reconhecida dentro e fora de África.
Décadas depois, Paulina Chiziane tornou-se uma das figuras mais importantes da literatura moçambicana e africana, acumulando obras publicadas e distinções internacionais.
Uma referência para várias gerações
Maria do Céu Novais descreve Noémia de Sousa como uma mulher de grande conhecimento, simplicidade e disponibilidade para ensinar os jornalistas mais novos.
“A Noémia sabia tudo, conhecia toda a gente. Ela dominava todos os temas, mas não hesitava em parar o trabalho para explicar, para corrigir, para aconselhar, para ensinar”, recordou.
Para a antiga jornalista, Noémia conseguia reunir duas dimensões: o rigor de quem acompanhava a actualidade como jornalista e a sensibilidade de quem observava o mundo como poeta.
“Ela juntava o olhar objectivo sobre todas as componentes da actualidade e uma forma de pensar e de sentir muito pessoal”, afirmou.
Maria do Céu Novais recorda ainda que Noémia acompanhava com especial atenção os jornalistas que trabalhavam em zonas de conflito e mantinha uma relação próxima com os colegas mais jovens.
100 anos de Noémia de Sousa
Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares nasceu a 20 de Setembro de 1926, na Catembe, em Moçambique.
Poeta, jornalista e activista, tornou-se uma das figuras fundamentais da literatura moçambicana e ficou conhecida como uma das grandes vozes da poesia de afirmação africana.
Foi também perseguida pela polícia política portuguesa durante o período colonial e viveu parte da sua vida fora de Moçambique.
Noémia de Sousa morreu a 4 de Dezembro de 2002, em Cascais, Portugal. A sua obra poética encontra-se reunida no livro “Sangue Negro”.
Um século depois do seu nascimento, a história envolvendo Paulina Chiziane mostra também a capacidade que Noémia tinha de reconhecer talento e perceber, antes de muitos, quem poderia marcar a literatura moçambicana.








